[Entrevista] Ricardo Lugris


O que leva uma pessoa a sair de seu emprego e se aventurar em cima de uma moto por países diferentes, conhecendo novas culturas, outras pessoas, certos costumes?

Seria a busca de algo? Ou a fuga em busca de respostas?

Foi isso que fez Ricardo Lugris, gaúcho, filho de espanhóis, nascido em Pelotas e criado em Bagé. Em busca de autoconhecimento, aos 57 anos ele se despediu de um emprego de 32 anos na Embraer para fazer uma viagem de moto, durante cinco meses, por 35 mil quilômetros de França à Singapura.

O resultado desta aventura está no livro “Tempo em Equilíbrio - entre Paris e Singapura” – Ed. Fontenele. PoaCult conversou com o Ricardo sobre esta incrível experiência e, porque não, lição de vida...

Acompanhe:

PoaCult - Ricardo, primeiramente parabéns pelo teu trabalho que tem como resultado este livro, parabéns pela coragem de se lançar em busca de um objetivo...

Como foi realizar esta viagem que começou a ser construída lá atrás, quando tu tinhas 12 anos?

É na Infância que geralmente construímos a base de nossos sonhos. A minha, fosse qual fosse a atividade que exercesse na vida, esta teria que incluir a viagem.

A moto chegou depois, como a ferramenta e veículo que me permitiria aproximar o objeto, os horizontes de minhas viagens com os cheiros, o frio, o calor, a chuva e todos os elementos aos quais estamos expostos quando sobre um veículo de duas rodas que nos torna participantes e integrantes na natureza.

Viajar era preciso. Viajar de moto, seria um luxo.

PoaCult - Que tipo de busca te motivou para esta viagem? Qual foi verdadeiramente o objetivo do Ricardo com esta viagem? Seria um autoconhecimento?

O objetivo do Ricardo para esta viagem era simples e redundantemente, viajar sem agenda.

Era percorrer, dar um tempo, observar e não estar preocupado com a data de retorno.

Não ter que pensar em contas, em impostos, em relatórios, em gravatas, em salário, em fim de mês.

O objetivo era simplesmente poder observar o meu entorno e ver quais seriam as reações e emoções dentro de mim.

Serei eu capaz de conviver comigo mesmo por tanto tempo?

O tempo tem uma dimensão extraordinária e não é por acaso que o designo como título de meu livro.

Viver esse tempo que varia muito segundo a região, segundo a cultura e segundo as pessoas que cruzam conosco, é onde está o verdadeiro privilégio de uma viagem desse tipo.

Foram seis meses onde vivi o presente.

Meu passado não interessava a ninguém e meu futuro não interessava naquele momento nem mesmo a mim.

PoaCult - No mundo moderno, as pessoas tem cada vez menos tempo. Vivem ocupadas demais para realizar seus sonhos e na sua maioria, se frustram ou passam pela vida sem realiza-los...

Esta viagem foi a realização de um sonho ou parte do que ainda está por vir? Pensas em fazer uma viagem?

Minha vida inteira tem sido a realização de um sonho.

Quem me conhece sabe que faço poucas concessões no que diz respeito à minha felicidade.

Sempre encontrei uma forma de conciliar minha atividade pessoal com as obrigações profissionais que, por princípio, deveriam também me propiciar, por consequência, prazer e satisfação.

Costumo dizer, pois vivo na França, que "a vida é por demais curta para bebermos vinho de má qualidade".

Obviamente, como digo em meu livro, uma viagem de seis meses não é pouco. É para poucos.

E eu tenho consciência disso, e me preparei para ela, sem idealizar ou planejar exageradamente.

Simplesmente, em um belo dia de sol as 11h da manhã, na presença de minha esposa, terminei de carregar a bagagem e parti. Sem fanfarras nem celebrações, apenas um beijo perdido no ar de quem teve a generosidade de me ver partir.

Minha apreensão naquele momento era simplesmente o que fazer com todo o tempo que eu teria diante de mim algo particularmente inédito em minha existência.

PoaCult - Nesta viagem, certamente passaste por diversos lugares, conheceu diversas culturas...Qual foi o lugar que mais te chamou a atenção? Qual a cultura que mais te impactou?

Poderia escrever páginas sobre os lugares que me chamaram a atenção ao longo dessa bela viagem.

Lembro que já percorri em minha vida mais de 140 países, sendo que quase uma centena dos quais de motocicleta.

Assim, com a experiência em viajar, nos tornamos um pouco mais exigentes no que diz respeito à apreciação de lugares e situações.

Há países e lugares fáceis de amar e a eles damos o nome de "turísticos".

Assim é a Tailândia, as Filipinas, o Laos o Camboja e o Vietnã.

Há outros, mais tímidos, mais difíceis, mais reservados que podem se revelar para o viajante como joias raras.

Assim foi para mim o Deserto de Gobi, um dos lugares mais isolados do planeta, à cavalo entre a Mongólia e a China.

Ali, durante dias, ao cortar o motor de minha moto, tive seguidamente o privilégio de viver em minha solidão, um silêncio absoluto.

Outro lugar que deixou uma tatuagem em minha alma foi o Lago Baikal, na Sibéria.

Suas águas extraordinariamente límpidas e frias permitiram banhos inesquecíveis para o cansado Motociclista enquanto admirava a nem sempre fácil rotina dos habitantes que veneram e protegem esse imenso depósito de água potável.

PoaCult - Hoje muito se fala em “período sabático”, onde as pessoas se afastam da sua rotina em busca de um “redescobrir”, enfim... Essa viagem serviu para o Ricardo se redescobrir? O que mudou de fato no Ricardo antes e pós viagem?

O que eu fiz, depois de decidir mudar a direção de minha longa carreira em uma excelente empresa, foi exatamente partir para um período sabático na sela de minha moto.

Curiosamente, em uma viagem assim você abandona a sua rotina e acaba por adquirir uma outra, pois somos seres de hábitos e costumes.

Seguramente, no retorno, em qualquer retorno, o viajante nunca mais será o mesmo.

Eu me vejo mudar a cada viagem, seja esta, longa ou curta. Mas reconheço e mim a mudança a cada dia de minha vida.

Eu me permito isso.

PoaCult - Como foi a sensação de, aos 57 anos, ter a coragem de abandonar o terno e a gravata e se permitir viajar durante 6 meses por lugares desconhecidos e sem saber o que poderia encontrar pelo caminho?

Não sei se tive coragem ou oportunidade. O que eu sei é que sempre tive uma profunda relação de afetividade, orgulho e cumplicidade com a empresa que estava deixando voluntariamente e sem ter outro emprego em mente, a Embraer.

A viagem fez -me entender o fim de um ciclo profissional e trouxe também a expectativa de um recomeço no retorno com a vantagem de ter muitas histórias para contar.

Meus clientes estão há anos habituados a ouvir meus relatos sobre como foi a última viagem e me indagam sobre qual vai ser a próxima.

Curiosamente, no início dessa viagem minha maior apreensão era de saber o que fazer com todo o tempo que eu acabava de colocar à minha própria disposição.

Parece um círculo virtuoso, não?

PoaCult - Baseado nesta grande experiência de vida, que conselhos ou dicas tu poderias dar para aquela pessoa que sonha em fazer uma viagem como esta?

Pare de sonhar e faça, eu diria.

Conheço alguns grandes motociclistas que venderam tudo o que tinham e pegaram a estrada não por 6 meses, mas por anos.

Não acho que minha viagem possa ser um modelo para ninguém. Ela, obviamente representa o que eu, com minhas enormes limitações, pude fazer naquele momento. Se pudesse repeti-la, eu o faria amanhã, pelo simples prazer de poder reencontrar as pessoas que cruzaram meu caminho.

Infelizmente, minha curiosidade sempre fala mais alto e eu vou acabar fazendo na próxima, um outro itinerário.

Saber o que há além do horizonte é o sonho que cultivo desde a minha Infância, herança cultural e emocional de meus pais, eles mesmos, vindos do outro lado do Atlântico.

Curtiu? Então compre este baita livro. Link direto abaixo:

www.bit.ly/tempoemequilibriopoacult

*crédito da Foto: Acervo Pessoal.


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