[Entrevista] Fernando Anitelli e o Teatro Mágico


O Poacult teve o prazer e a honra de bater um papo com esse baita artista chamado Fernando Anitelli, o idealizador do Teatro Mágico que inovou ao misturar circo, rock, brasilildade, performance, poesia e bom humor em seus shows. Te ajeita na cadeira e aproveita a viagem ;)

Fernando Anitelli apresenta Teatro Mágico Voz e Violão em Porto Alegre dia 08/07/2017 - Informações aqui.

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POACULT ENTREVISTA FERNANDO ANITELLI

PoaCult: De repente, uma trupe vinda de São Paulo, sem alarde, começa a lotar as casas de show aqui em Porto Alegre. "Sem divulgação", só no boca a boca, fãs incondicionais faziam (e fazem) de tudo para não perder os show. Como se deu essa chegada do Teatro Mágico em Porto Alegre e qual a explicação para essa mobilização, naquele tempo em que a internet não tinha taaanto alcance e facilidade de acesso como hoje?

Anitelli: É uma historia que também vai ao encontro com outras cidades. A gente pedia que os amigos, conhecidos, familiares que conhecessem as pessoas pudessem enviar a música pela rede, compartilhar os CDs. Em muitas ocasiões a gente distribuiu, a gente enviava CD, adesivo. “Distribui, mostra isso pras pessoas!”. Porque a gente sempre acreditou na ideia simples de que a música só existe se alguém ouvia a música. Então, enquanto a música não era ouvida, não era tocada, ninguém conhecia a gente. A partir do momento em que as pessoas conhecessem o trabalho, do que se tratava, qual que era a ideia, o que dizia a letra, qual que era a ideia daquela bagunça de pluralidade acontecendo ali naquele palco, naquela gravação... Então, o povo de Porto Alegre é um povo curioso, interessado. Sempre recebeu a gente com muito carinho, com muita satisfação em ver um negócio novo acontecendo, que na verdade trazia a ideia simples, tocar com figurino, maquiado, misturando música brasileira com coisa lá de fora. É uma coisa que já se fazia há muito tempo no Brasil, mas eu acho que o formato, a maneira, essa discussão da música livre, desse formato do circo com a ideia da pegada politizada, a palavra, a poesia... é uma porção de coisas, né cara? Você parar pra pensar o que exatamente fez a gente chegar como a gente chegou em Porto Alegre é você ir lembrando de uma porção de coisas. Você vai linkando uma coisa na outra, vai abrindo janela... porque tudo é assim “ah, isso aconteceu por causa disso”, não: tudo tem uma relação de momento histórico, como a rede se colocava naquele momento, as comunicações se faziam, as ideias que a gente tomou, o que a gente apresentou pra apresentar o TM naquele momento ali em POA... é isso. O que eu posso dizer é que o final da equação é um resultado muito positivo, é uma história muito bacana, massa pra caramba.

PoaCult: Quais as diferenças desse novo show do Fernando Anitelli Voz e Violão para o Teatro Mágico que o público está acostumado a ver?

Anitelli: A diferença é brutal, porque numa apresentação como o Teatro Mágico você tem variadas atenções, variados timbres, texturas, cores, movimentos. É outra pressão. É tudo diferente. Você tem ali uma exposição de um encontro de artistas performáticos com músicos, com uma plateia quente... é todo esse contexto. Já essa apresentação voz e violão traz esse lado lúdico, performático, poético, sonoro, musical, mas tudo na minha pessoa, na minha caracterização, no meu jeito de ser, de falar, de trazer o personagem à tona, de mostrar as músicas de todos os álbuns, como foram criadas na sua essência, o porquê foram criadas, algumas histórias de bastidores, de referências, de inspiração, algumas citações dessas referências, o convite à participação do público no meio da apresentação, com poesias, com música, com a voz, cantando coisas que a gente não gravou, mas chegou a mostrar, chegou a fazer ao vivo... Enfim, esse lado B das coisas, esse lado mais próximo, mais íntimo, mais introspectivo, sem menos festa, sem menos provocação, sem menos humor, sem menos amor nas coisas que se faz ali... é isso: Fernando Anitelli apresentando Teatro Mágico Voz e Violão traz esse tempero do que é aquela experiência do sarau, a força e a visceralidade quando você coloca simplesmente a palavra, a harmonia, o silêncio e a plateia – pá! É aquilo, não tem nada mais mascarando qualquer outra coisa. É um encontro que eu acho muito bacana. Se tiver a chance de olhar na nossa timeline, tanto da pagina do Facebook ou do Instagram as fotos ou os depoimentos do público que já foi... nós fizemos nesse primeiro semestre nordeste, norte do país, fizemos São Paulo também, fizemos BH , enfim: deem uma olhadinha lá no que que o pessoal tem comentado. A experiência tem sido fabulosa.

PoaCult: Estamos vivendo uma mudança de era.A chamada revolução digital por alguns autores já está mudando o conceito de emprego formal para algo mais ligado ao empreendedorismo, por exemplo. Tudo ao acesso de todos é uma realidade cada vez mais aceita e o conceito de propriedade - ter posse sobre alguma coisa - está mudando para uma cultura de acesso - não preciso ter a posse para usufruir de algo. Com relação a propriedade intelectual, como a música essa ideia é ainda mais abstrata, ou seja, "por que pagar por uma coisa que tenho de graça na internet?"Tu és um defensor da música livre desde o início do TM, quando toda a indústria estava contra isso. Como tu vês essa questão da remuneração do artista por sua obra hoje em dia? Dá pra viver só de show ou o artista tem que "trabalhar" para sustentar a arte? (nós, do PoaCult, ainda temos que trabalhar pra sustentar o site:)

Anitelli: Essa era digital em que a gente vive e que muito do que fazemos é compartilhado, é usado e muitas vezes remixado, muitas vezes reconstruído, enfim, todas essas recombinações essas manipulações que a tecnologia nos dá a possibilidade de fazer com música, com imagem, com texto...isso sempre existiu, isso que faz sermos o que somos: a recombinação das coisas. Agora, o fato da música ser livre e acessível, não quer dizer que ela não gere dinheiro, que ela não gere uma economia, que ela não esteja ligada a uma formação de capital que você possa ganhar com isso, que você tenha direito sobre isso... Eu acho que quando o uso é pessoal, quando é compartilhado, é uma coisa. Quando você tá ganhando com isso, é outra coisa. “Ah mas a pessoa não está ganhando...”, mas acho que não é o usuário que a gente tem que – usuário, não, que parece que é uma droga o negócio (risos) é muito bom você ter ferramentas assim na mão – mas a pessoa que se utiliza, que compartilha é o fã, é a pessoa que é mais apaixonada pelo projeto, pelo trabalho. A gente não pode criminalizar quem tem carinho pela tua obra, quem ajuda a sustentar a tua caminhada. Mas as plataformas que se sustentam através do uso da tua música, dos teus recursos, sejam essas plataformas Deezer, Spotify, ITunes o que for, You Tube, sim, a gente tem que brigar sempre por porcentagens maiores e melhores tais quais eles fazem no mercado internacional, inclusive. O Brasil é um país gigante e usa muito a internet e os compositores vão ganhar simplesmente através dessas plataformas. A partir de agora é isso, a grande maioria das coisas vai ser isso. E a gente tem que fazer show ao vivo, tem que criar variações da tua obra, tem que criar desdobramentos dela. Por isso que a gente sabe se transformar em formatos distintos, em tamanhos distintos pra ocupar espaços distintos e com textos, músicas, performers, apresentações, enfim: todo esse universo do “adeque-se”, “improvise”... A gente sempre lidou com isso. Então eu acho que é importante sim, a gente ter atenção, esses olhos pra isso. Eu acredito muito na acessibilidade, na música livre, na música cada vez mais forte junto ao autor cada vez mais dignificado e a gente tem que saber construir isso. O autor que não quiser deixar sua música livre é uma outra história. Porque cada um faz o que bem entender com aquilo que criou, né? Cada um sabe a roupinha que quer vestir o filho, o lado do cabelo que quer pentear a criança... Então, dentro desse propósito, quem se adequa a esse lugar mais progressista, liberal e cada vez mais contemporâneo que é a música livre e a gente sabendo lidar com a tecnologia é isso. Bora fortalecer a caminhada.

PoaCult: Os serviços de streaming, e a expansão da internet de um modo geral, mais ajuda ou atrapalha o artista hoje em dia (tem artista que acha injusto o tratamento/remuneração que o Spotify dá a ele, por exemplo)?

Anitelli: A importância que elas tem é a atualidade do mercado, do cotidiano, mas a gente tem que tá atento também porque elas ganham muito em cima do que é colocado dentro delas, desse material nosso que tá lá. Eu acredito na música livre, a música tem que ser acessível a quem quer ouvir. Agora, a plataforma que ganha dinheiro com isso tem que repassar parte disso para os autores sem dúvida alguma. Quando você é autor de uma obra, você sabe como você quer cuidar dela.

PoaCult: Fazer música no Brasil é fácil? O que é necessário para se fazer e viver música aqui?

Anitelli: Olha, uma luta muito grande você viver de produção cultural no Brasil – seja de música, cinema, dança, teatro, artes plásticas, design, o que for. É uma luta constante, você tem que tá envolvido com as pessoas que também tão fazendo isso, seja em rede, seja presencialmente. Tem que tá pesquisando, estudando, se adaptando, em movimento. No Brasil, eu gostaria de saber, na verdade, o que é fácil fazer? Acho que a gente teria uma resposta na ponta da língua, né? Que seriam as coisas pejorativas pra se lembrar, as coisas ruins, de imediato. É fácil fazer a coisa ruim, é fácil fazer o que não é legal, é o que a gente vê, é o exemplo que tá colocado na mídia, nas administrações públicas, nas relações com a fé, com a saúde, enfim. Então, o Brasil é um pais de luta. Não vou nem limitar à arte, à criação. Limitar é não militar por todos, por quem tá envolvido com o ato de sobreviver neste país. Vocês que estão fazendo esse trabalho agora sabem a luta que é ter um canal de comunicação digno, que gere capital, respeito, que tenha incentivos públicos, privados, o que for – é uma grande luta. Estamos todos no mesmo barco – católico, evangélico, budista, macumbeiro, corintiano, espírita ou ateu... tem hora que a gente se pergunta porque é que não se junta tudo numa coisa só...

PoaCult: Fernando, o Brasil tem jeito? Como tu vês esse momento político e como a gente sai dessa? O que o brasileiro pode fazer para melhorar este país,sem depender do governo? A cultura pode ser uma saída?

Anitelli: Tudo é uma coisa só. Tudo precisa se transformar para ter uma saída esse país: as relações, as questões sobre o olhar moral, religioso, econômico, progressista, enfim. É fundamental que todas as pessoas compreendam que em todas as áreas existem submundos, em todas as áreas existem as sombras, os bastidores caóticos, e isso é inevitável hoje, no país inteiro. Se você abrir a saúde, a igreja, as escolas, os repasses - não só as políticas - as empresas, as questões privadas, os bancos, as telefonias... cara! Abre qualquer coisa, é tudo feito dessa maneira! É impressionante... Eu acho que em todas as áreas a gente precisa de guerreiros de luz com disposição, coragem, informação pra que a gente possa através de micropolíticas, cada um na sua área, nos seus pequenos espaços, saindo dessa ideia do azul e do vermelho, entrar nas questões mais voltadas pras pautas, não é mais uma questão de sigla. Nós não temos uma representação política. O país tá cansado. Existe um véu de “nhaca” derramado sobre todos nós. Então, se a cultura é uma saída? Acho que tudo é uma saída, se for feito com coragem, disposição, micropolíticas, se organizando passo a passo, de olho nas coisas, buscando as informações em variados outros lugares.

PoaCult: O Teatro Mágico está para tomar novos rumos, e vindo de uma mente inovadora como a tua, o que se pode esperar dessa nova fase?

Anitelli: Pode ser qualquer coisa, né? Impressionante. Eu voltei a escrever muito com um grande parceiro meu, Danilo Souza. Tô com ideias acústicas, elétricas, estou com textos variados, estou pensando cores, movimentos, estou pensando tamanhos, formações, tô pensando uma porção de coisa e na verdade nesse exato momento tudo isso fica flutuando... Como eu tô muito dentro da turnê voz e violão, eu fico preocupado com aquilo que é muito próximo, e o que nós temos pra mais tarde eu acabo deixando nas redondezas das minhas ideias. Mas seguramente vai ser um trabalho diferente do que fizemos no nosso álbum mais recente: Allehop. Continuaremos nessa caminhada de mesclar, misturar, convidar parceiros e parceiras pra colaborar com as canções, com a elaboração das canções, com a execução das canções. O Teatro magico é justamente essa experiência do encontro na música, na performance, no palco. Eu acho que tem tanta coisa pra acontecer... as músicas, já tem um bocado delas, tem umas 15 atuais prontas, mas eu quero fazer mais umas outras 15 pra poder tirar o supra sumo delas e a partir disso começar a mergulhar nesse furacão e saber pra que lado ele vai nos arremessar.


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